10 práticas da Igreja que já mudaram antes, e podem mudar de novo
Na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, algumas doutrinas centrais nunca mudam. Mas nem tudo o que hoje conhecemos como “prática” ou “política” está necessariamente gravado em pedra. Ao longo da história da Igreja, muita coisa que hoje parece definitiva já foi diferente no passado, e isso levanta uma pergunta interessante: o que mais poderia mudar no futuro?
Reunimos aqui uma lista de dez práticas, políticas e até algumas doutrinas que já passaram por transformações ao longo do tempo e que, por não terem uma base doutrinária imutável, poderiam evoluir novamente. Não se trata de uma lista do que “deveria” mudar, apenas do que, olhando para a história, poderia mudar.
1. A aplicação da Palavra de Sabedoria
A forma como interpretamos e aplicamos a Palavra de Sabedoria mudou bastante desde que foi revelada, em 1833. No início, era vista mais como um bom conselho do que como um mandamento rígido, tanto que líderes como Joseph Smith e Brigham Young ocasionalmente bebiam álcool, e café e chá chegaram a fazer parte da lista de mantimentos dos pioneiros rumo a Utah.
O foco, na época, era a moderação, não a abstinência total. Com o tempo, o consumo de tabaco, álcool, chá e café passou a ser proibido por completo.
Essa transição para a abstinência total não aconteceu de uma vez: foi um processo gradual, que se intensificou ao longo de décadas, sob a liderança de presidentes como Joseph F. Smith e Heber J. Grant, no início do século XX, até que a observância estrita se tornasse, em 1921, um pré-requisito para entrar no templo.
Não seria surpresa ver, no futuro, uma lista mais curta de substâncias proibidas e um foco maior em ensinar princípios corretos, deixando que cada membro decida como aplicá-los, algo parecido com o que já aconteceu na atualização do manual Para o Vigor da Juventude que agora é Força dos Jovens.

2. A barba dos líderes da Igreja
Um ponto mais leve: o visual sem barba nem sempre foi o padrão entre os líderes da Igreja. Por cerca de cem anos, era comum que o presidente da Igreja tivesse barba.
Isso mudou por volta da época do presidente David O. McKay, na década de 1950, quando o visual sem barba se tornou o padrão cultural.
Curiosamente, a relação da Igreja com a barba já foi até o oposto do que é hoje: no início do século XX, líderes de missão chegaram a pedir que os próprios missionários deixassem crescer a barba, por considerarem que isso transmitia mais dignidade. Não haveria problema algum se essa cultura mudasse novamente no futuro.

3. As ordenanças do templo
As ordenanças do templo já passaram por muitas mudanças ao longo da história, inclusive nos últimos cinco ou seis anos, especialmente durante a pandemia de Covid. A investidura, por exemplo, durava várias horas no início.
O propósito central da ordenança permanece o mesmo, mas o formato tem se ajustado ao longo do tempo. Quem sabe no futuro tenhamos uma cerimônia mais curta, a possibilidade de fazer várias sessões por nomes de uma só vez, ou até cônjuges sentados juntos, em vez de homens de um lado e mulheres do outro.
4. Mulheres abençoando os enfermos
Um artigo recente publicado pela própria Igreja, sobre “Serviço e Liderança das Mulheres na Igreja”, confirmou que, no passado, mulheres davam bênçãos de cura em nome de Jesus Cristo, sem invocar autoridade do sacerdócio.
Segundo o historiador Jonathan Stapley, em seu estudo sobre o desenvolvimento do ritual moderno de cura mórmon, essas curas eram vistas menos como um exercício exclusivo da autoridade do sacerdócio e mais como dons espirituais disponíveis a todos os santos, homens e mulheres. Tanto Joseph Smith quanto Brigham Young já defenderam essa prática publicamente.
Segundo a pesquisa de Stapley e Kristine Wright sobre “cura ritual feminina no mormonismo”, essa era uma prática comum e normal desde os primeiros anos da Igreja, no período de Kirtland, e só foi se tornando cada vez mais rara ao longo do século XX, sem que tenha havido, em algum momento específico, uma proibição formal. Ainda que as coisas tenham mudado, não seria impossível ver um retorno a algo parecido no futuro.

5. Presidências da Escola Dominical
Durante muito tempo, o manual da Igreja determinou que o bispo chamasse um portador do Sacerdócio de Melquisedeque para presidir a Escola Dominical. Não havia uma razão doutrinária clara pela qual isso não pudesse mudar, afinal, presidentes da Escola Dominical não detêm nenhuma chave do sacerdócio.
E, de fato, mudou: em 18 de março de 2026, a Primeira Presidência anunciou uma atualização no Manual Geral permitindo que o bispo chame um homem ou uma mulher para presidir a Escola Dominical de cada ala. Se for chamada uma mulher, suas conselheiras e secretária também devem ser mulheres; se for chamado um homem, ele precisa ser portador do Sacerdócio de Melquisedeque, com conselheiros e secretário homens.
Ou seja, em uma mesma ala, a presidência pode ser totalmente masculina em um momento e totalmente feminina em outro, conforme a inspiração dos líderes locais.
6. Presidências da Primária
No mesmo raciocínio, vale lembrar que a Primária, como organização em nível de toda a Igreja, é relativamente recente: a primeira reunião aconteceu em Farmington, Utah, em 25 de agosto de 1878, organizada por Aurelia Spencer Rogers, preocupada com a falta de supervisão e orientação para as crianças da região.
A primeira presidência geral da Primária só foi chamada em 1880. Hoje, o manual determina que o bispo chame uma mulher adulta para presidir.
Assim como no caso da Escola Dominical, não há uma razão doutrinária que impeça essa política de mudar, seja para presidências totalmente femininas, seja para presidências totalmente masculinas.

7. As roupas do templo
Já é bem conhecido que a veste do templo mudou ao longo do tempo, mas há outro detalhe curioso: o uso de roupas brancas no templo só se popularizou a partir de 1º de fevereiro de 1877, quando Wilford Woodruff registrou em seu diário ter se vestido de branco da cabeça aos pés para oficiar no Templo de St. George, com a irmã Lucy B. Young vestida de branco também, representando Eva, um episódio que ele descreveu como o primeiro exemplo desse tipo em qualquer templo daquela dispensação, conforme relatado no capítulo 28 de Santos, Volume 2, publicação histórica da própria Igreja.
O simbolismo do branco é bonito, mas, como prática, não é algo definitivo e imutável.
8. A ênfase no dízimo
No site oficial da Igreja, no artigo sobre a história das finanças da Igreja, conta bem como essa ênfase oscilou ao longo do tempo: as leis antipoligamia da década de 1880 levaram o governo dos Estados Unidos a confiscar bens e fundos da Igreja, deixando os presidentes Wilford Woodruff e Lorenzo Snow com dívidas significativas.
Foi diante desse cenário que, em 1899, o presidente Snow pediu aos santos que aumentassem seu compromisso com o dízimo, o que, com o tempo, ajudou a Igreja a recuperar sua solvência financeira.
Segundo o artigo sobre o dízimo, Snow chegou a viajar por diversos assentamentos de Utah pedindo aos membros que pagassem um dízimo honesto, prometendo bênçãos espirituais e materiais em troca, e, em poucos anos, seu sucessor, Joseph F. Smith, conseguiu quitar todas as dívidas da Igreja.
Foi esse tipo de crise, mais do que uma ênfase espontânea, que ajudou a consolidar o dízimo como conhecemos hoje. De qualquer forma, talvez, no futuro, haja algum movimento de ênfase renovada nessa direção.
9. As práticas missionárias
Nos primeiros anos da Igreja, homens casados e com família podiam ser chamados para servir como missionários, às vezes sem prazo definido, algumas missões duravam vários anos. As exigências de idade já mudaram e podem mudar de novo; talvez no futuro surjam diferentes opções de duração de missão para jovens, parecido com o que já existe para missionários seniores.
O traje missionário também já mudou, e não é impossível imaginar mais missões de serviço no lugar do trabalho porta a porta tradicional.

10. A ordenança do sacramento
Hoje, a política determina que diáconos ou outros portadores do sacerdócio sejam responsáveis por distribuir o sacramento. Mas será que isso é uma exigência eterna, ou uma responsabilidade atribuída por política?
Em 1928, o presidente Heber J. Grant escreveu a um presidente de missão explicando que, embora fosse costume, não havia regra na Igreja impedindo que jovens dignos sem o sacerdócio distribuíssem o sacramento na ausência de rapazes ordenados, isso não invalidaria a ordenança.
Essa não é a política atual da Igreja, mas talvez, no futuro, homens sem o sacerdócio, mulheres ou até crianças mais velhas da Primária possam ser designados para essa tarefa.
Vale lembrar, aliás, que nem sempre foram os jovens diáconos os responsáveis por essa função: segundo o historiador William G. Hartley, em seu artigo “From Men to Boys: LDS Aaronic Priesthood Offices, 1829–1996”, durante boa parte da história da Igreja eram homens adultos do Sacerdócio Aarônico que distribuíam o sacramento, e só em 1908 a Igreja formalizou a estrutura de idades entre diácono, mestre e sacerdote como conhecemos hoje.
E o preparo do sacramento? O mesmo artigo da Igreja sobre “Serviço e Liderança das Mulheres” menciona que, até por volta de 1950, mulheres às vezes preparavam a mesa do sacramento.
Já mudou antes, pode mudar de novo
Especular sobre esse tipo de mudança pode ser divertido. Algumas dessas transformações talvez fossem bem-vindas; outras, nem tanto. Mas a boa notícia é que essa decisão não cabe a nós, e é motivo de gratidão confiar em quem tem essa responsabilidade.
O que essa lista mostra, no fim das contas, é que separar o que é doutrina inalterável do que é apenas política ou prática atual pode ser um exercício saudável para reavaliar nossas próprias suposições.
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Post original de Maisfé.org
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