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Do sonho de ser padre ao chamado para servir missão

Eu sou filho de uma família católica fervorosa, com raízes no interior e no êxodo rural. Como todo bom sertanejo, para os meus avós, ter alguém na família com vocação sacerdotal era o ápice da honra. Eu rezava terços, rosários, não perdia uma festa padroeira e amava os grupos de jovens. Na minha paróquia de bairro, no Recife, eu me tornei coroinha (acólito). Servir ali no altar era, para mim, um privilégio imenso; eu gostava da organização, da liturgia e de como a hierarquia funcionava.

Meu futuro parecia traçado: eu estava determinado a me consagrar a Deus como padre. Meus avós amavam a ideia, meus amigos apoiavam, mas curiosamente, eu nunca vi muito entusiasmo nos olhos da minha mãe. Havia um silêncio da parte dela que, às vezes, plantava uma semente de dúvida em mim.

E por falar em dúvida, havia um vazio silencioso que me acompanhava. Na maioria dos encontros de jovens, sempre existia aquele momento de êxtase espiritual. As pessoas choravam, falavam em línguas, se emocionavam. Eu buscava, eu batia na porta, mas não sentia nada. Eu me constrangia, porque precisava fingir estar envolto por uma atmosfera que não comovia o meu espírito. A música, o ambiente, os cantos… nada me tocava. Eu me perguntava no silêncio do meu quarto: “Será que sou só eu? Será que isso é verdade mesmo?”

A ilusão começou a ruir em um encontro vocacional. Eu, que acreditava piamente na figura do “persona in Christi” (a pessoa de Cristo no sacerdote), fui duramente impactado pela “humanidade” e pelas falhas que presenciei e ouvi ali. Voltei frustrado, triste e reflexivo.

O que eu não sabia é que Deus já estava preparando o meu caminho meses antes. Em 2004, época da visita do Presidente Hinckley ao Brasil, eu estava no 3º ano do ensino médio. Na biblioteca do colégio, li uma reportagem na revista sobre a Igreja. Fiquei intrigado com a “cidade no deserto” e fui buscar mais no Almanaque Abril.

Dias depois, vi os missionários passarem por mim no ônibus. “Devem ser espiões americanos… ou espíritas”, pensei. Noutro dia, na rua, vi os Élderes vindo na minha direção e cheguei a dar passos mais curtos, torcendo para que me parassem. Eles passaram direto.

Até que, alguns meses depois, eles bateram na casa do meu tio, que morava ao lado da casa da minha avó, onde eu residia. Minha tia me avisou que os “mórmons” voltariam naquela semana. Eu me preparei. Estava pronto para o combate, com as pedras nas mãos para dizer o clássico “nasci católico e morrerei católico” e dar uma lição naqueles rapazes.

A lógica da fé, a proibição e a camisa branca

Quando os missionários chegaram, eu estava armado. Comecei a metralhar perguntas difíceis sobre o como, o porquê e o quando da igreja deles. Esperava que eles fossem superficiais, mas a abordagem doce e pura deles me desarmou completamente. Eles tinham respostas para tudo: apóstolos, profetas, chaves, autoridade (e tudo fazia sentido… o que eu eu poderis comntra argumentar?).

Como estudante apaixonado por História e fascinado pelas civilizações das Américas (Incas, Astecas), ouvir sobre o Livro de Mórmon não pareceu um absurdo. Fez um sentido lógico esmagador. Se Jesus havia ministrado em Jerusalém, por que não visitaria Suas outras ovelhas nas Américas? Cada ensinamento se encaixava perfeitamente. Não havia como argumentar contra a verdade quando ela também fazia sentido para o intelecto.

O problema é que o meu envolvimento chamou atenção. Minha avó me chamou para uma conversa séria. Ela reafirmou nossa cultura e a fé da família e deu a sentença: os missionários não poderiam mais fazer reuniões na casa dela. Tentei receber as palestras na casa de membros próximos, mas não funcionou.

Decidi, então, ir até a capela. Peguei um ônibus para um bairro distante, ainda com aquele sentimento defensivo de que, se falassem alguma heresia, eu iria intervir. Mas, para a minha surpresa, tudo ali era sobre Jesus Cristo. Era um domingo de Jejum e Testemunhos. Eu não entendi absolutamente nada do que estava acontecendo. Pessoas subiam no púlpito para falar de forma espontânea, e eu me perguntava como a “igreja verdadeira” podia ter tão pouca gente. Para quebrar o gelo e me acalmar, os missionários sentaram comigo e ficaram me mostrando seus álbuns de fotografias familiares.

Sem poder receber visitas no Recife, tomei uma decisão radical: voltei a morar no interior, em Carpina, a 60 km de distância, com a minha mãe. Antes de ir, os Élderes me fizeram prometer que eu procuraria a Igreja no domingo. Lembrando que todo mundo que eu vi na capela do Recife usava preto e branco, não quis destoar. Vesti uma calça preta e uma camisa branca novinha, só me faltou a gravata, e fui.

Lá, reencontrei os missionários e recomecei as lições. Minha mãe me recebeu bem, mas meu padrasto se tornou uma muralha. Como eu tinha apenas 17 anos, ele controlava minhas saídas com uma perseguição sem sentido: se eu fosse à Igreja no domingo de manhã, não podia ir à tarde; se fosse nesta semana, não iria na próxima.

O batismo secreto e o chamado para Manaus

Eu precisava esperar completar 18 anos. Meus pais tinham muitas ideias erradas sobre a Igreja e se recusaram a assinar a autorização de batismo. O dia do meu batismo foi especial, mas tenso. Eu planejava sair escondido, com o coração na mão, temendo ser barrado na porta. Mas houve uma providência divina: um imprevisto segurou toda a minha família no Recife naquele dia. A casa ficou vazia o tempo exato para eu ir à capela, descer às águas e voltar.

Não havia ninguém da minha família lá, apenas os amigos da ala e os missionários. Mas o sentimento… ah, o sentimento era inegável. Era verdadeiro, tinha poder e autoridade. Quando meus pais chegaram em casa, quiseram fazer uma “reunião” para me dizer que eu deveria pensar melhor antes de tomar aquela decisão. Apenas sorri por dentro; já estava feito.

No início, eu não queria servir missão. Queria estudar e viver a minha vida. Havia um estigma de que as pessoas só se batizavam na Igreja para “viajar para os Estados Unidos”, e eu queria provar o contrário. Mas o meu bispo se tornou meu mentor e meu melhor amigo. Ele me ensinou na prática como ser um discípulo de Jesus, ajudando-me com leituras e com o verdadeiro arrependimento.

Quando o testemunho ardeu no peito, a decisão foi natural. Fui à secretaria e tranquei meus cursos de História na UFPE e Administração em Comércio Exterior na FAFIRE. As pessoas me chamaram de louco, pediram para eu medir as consequências e o tanto que eu iria perder. Minha única resposta mental era Filipenses 3:8: considerei tudo como perda pela excelência do conhecimento de Cristo.

Recebi minha Bênção Patriarcal e fui ao templo receber minha investidura. Lá dentro, minha alma gritava: “O mundo precisa saber disso, a obra de Deus é grandiosa!” Dias antes do meu chamado chegar, orei em silêncio: “Senhor, me manda para qualquer lugar… menos para Manaus. Eu não gosto muito de peixe.”

Quando o bispo me chamou em sua sala para abrir a carta (já que eu não podia fazer isso em casa), meus olhos bateram nas palavras: Missão Brasil Manaus. Um frio subiu pela espinha, mas logo meu coração se aqueceu. “Tá certo, Jesus. Você escutou. Eu vou.”

Eu não tinha dinheiro para o enxoval. Uma família paupérrima da ala, que muitas vezes ia à Igreja com roupas brancas já rasgadas e gastas, me presenteou com uma camisa branca novinha. Na missão, toda vez que eu vestia aquela camisa, eu lembrava do sacrifício deles.

O dia da minha partida foi gélido e nublado. Minha mãe estava triste, e apenas meus líderes me levaram ao aeroporto. No CTM, enquanto todos recebiam cartas e pacotes num mundo colorido, eu vivia a solidão. Escrevia toda semana para casa, temendo estar decepcionando meus pais.

A primeira carta da minha família só chegou nas minhas mãos três meses depois, já no campo. Em Manaus, enfrentei sol, chuva, companheiros difíceis e a saudade constante da minha mãe. Mas não havia tempo para reclamar: eu levantei a cabeça e fui trabalhar. Parei 2 anos da minha vida para crescer 20.

O retorno, o templo e a missão contínua

Voltei do campo missionário ainda mais engajado. Coloquei o Senhor em primeiro lugar, mas a vida real cobra o seu preço. Eu era um rapaz “liso”, sem dinheiro no bolso, tentando insistentemente encontrar uma namorada, uma tarefa quase impossível nessas condições.

Fui à luta. Morando no interior e fazendo estágio na capital, retomei os estudos e o trabalho. Minha rotina era implacável: eu dormia apenas 3 a 4 horas por noite. O cansaço era extremo, mas a resiliência forjada nas ruas de Manaus me manteve de pé.

Até que veio a bênção profissional que eu jamais imaginei: consegui um emprego no Templo do Recife, trabalhando como secretário do Presidente do Templo. Aquilo foi o ápice da minha realização pessoal e profissional até aquele momento. Não apenas pelo cargo, mas pelo privilégio de trabalhar diariamente na Casa do Senhor.

Finalmente, encontrei minha companheira eterna… no templo, era é irmã de um companheiro do meu companheiro de missão; me casei e formamos a nossa família. Hoje, ver nossos dois filhos crescendo dentro do convênio e desfrutando das bênçãos de um lar centrado no evangelho é a prova viva de que valeu a pena cada sacrifício, cada perseguição, cada lágrima. Eles nunca precisarão passar pelos conflitos religiosos que eu passei.

Minha missão não acabou. Sinto que ser um discípulo de Jesus Cristo é um trabalho para a vida inteira. Eu ainda caio, eu ainda duvido, eu ainda preciso me arrepender constantemente. A vida não é um roteiro perfeito. Mas eu sei, no fundo da minha alma, que essa Igreja é verdadeira. Eu confio no meu Salvador. E quando olho para trás, desde o jovem coroinha angustiado até o pai de família que sou hoje, posso ver a mão de Deus me guiando em exatamente cada fase desta jornada. A eternidade está só começando.

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Post original de Maisfé.org

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